
As apostas online passaram a fazer parte da rotina de milhões de brasileiros nos últimos anos, mas os impactos financeiros e de saúde associados às bets também ganharam dimensão nacional. Em 2025, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões em apostas, segundo dados do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz).
Além das perdas financeiras, profissionais de saúde relatam casos de dependência, ansiedade, isolamento social e pensamentos relacionados à morte entre pessoas que desenvolveram problemas com os jogos.
Como as bets afetaram a vida dos brasileiros?
O caso de Kaio*, de 42 anos, mostra uma das consequências relatadas por pessoas que desenvolveram dependência em apostas. Ele afirma ter perdido o carro, a casa e o emprego por causa das dívidas contraídas com o jogo.
Atualmente, ele vive sozinho em um dormitório no interior de Goiás e procura reconstruir a vida. Por causa de dívidas com agiotas, decidiu se afastar da família e buscar um local onde se sentisse mais seguro.
Neste ano, Kaio começou a frequentar um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), onde participa de grupos terapêuticos e consultas médicas.
Quanto dinheiro as famílias brasileiras perderam com as bets?
Em 2025, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as empresas de apostas. O cálculo considera a diferença entre o dinheiro colocado nas plataformas e os valores devolvidos aos apostadores em forma de prêmios.
De acordo com dados divulgados no Boletim Fiscal dos Estados, do Comsefaz, as perdas representaram 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias.
Entre outubro de 2024 e março de 2026, as bets movimentaram quase R$ 351 bilhões em transações realizadas por Pix.
Quando as apostas online passaram a ser regulamentadas no Brasil?
As apostas de quota fixa foram autorizadas pela legislação brasileira em 2018, durante o governo Michel Temer. A regulamentação das plataformas ocorreu somente em dezembro de 2023.
Durante esse intervalo, as empresas de apostas funcionaram no país com poucas regras específicas. Com a regulamentação, foram estabelecidas exigências relacionadas à publicidade, incluindo avisos de desestímulo às apostas e alertas sobre possíveis prejuízos provocados pelo jogo.
A Medida Provisória 1.394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 25 de setembro de 2026, revogou o capítulo da legislação de 2018 que tratava das apostas.
Por que algumas pessoas desenvolvem dependência em apostas?
A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, afirma que pessoas em situação de vulnerabilidade estão entre as mais suscetíveis ao desenvolvimento de problemas relacionados aos jogos.
Segundo a especialista, parte da publicidade apresentava as apostas como uma possibilidade de obter retorno financeiro rápido ou complementar a renda.
Para quem já enfrenta dificuldades econômicas, essa expectativa pode contribuir para o aumento das apostas e das perdas financeiras.
As plataformas deveriam impedir apostas de usuários compulsivos?
As regras que regulamentavam as bets estabeleciam mecanismos de proteção para pessoas identificadas como apostadores compulsivos.
Segundo o advogado Júlio Leone, ouvido pela Agência Brasil, essas medidas não foram aplicadas de forma efetiva. Ele também relatou o envio frequente de bônus e anúncios aos usuários.
Kaio conta que recebia mensagens constantemente no celular. A facilidade de acesso às plataformas também era apontada por especialistas como um fator que dificultava o controle do comportamento.
Os jovens também estão apostando online?
Sim. Uma pesquisa realizada com 1.912 estudantes de 191 escolas brasileiras apontou que 20,4% dos alunos dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio disseram ter feito apostas online no último ano.
O levantamento foi realizado pela Equidade.info, a pedido da Frente Parlamentar Mista da Educação.
Entre os estudantes de 11 anos entrevistados, 9,5% disseram já ter feito apostas.
A psicóloga Mariana Kehl, integrante da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que adolescentes são mais suscetíveis aos estímulos relacionados à recompensa porque o desenvolvimento de áreas cerebrais responsáveis pelo controle de impulsos e pela avaliação de riscos continua durante a juventude.
Quais problemas de saúde estão associados à dependência em bets?
Profissionais de saúde relatam que pessoas com problemas relacionados às apostas podem apresentar ansiedade, isolamento, desesperança, mudanças de comportamento e aumento do consumo de álcool.
Em casos mais graves, especialistas também relatam pensamentos relacionados à morte e ideação suicida associados aos prejuízos provocados pelo jogo.
A psiquiatra Katia Branco afirma que manifestações desse tipo precisam ser levadas a sério e acompanhadas por profissionais de saúde.
Onde quem tem problemas com apostas pode buscar ajuda?
O tratamento pode envolver serviços de saúde mental, incluindo os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), além de acompanhamento médico e psicológico.
A psicóloga Claudia Feres, que trabalha em um Caps no Distrito Federal, relata que a rede recebe pessoas com diferentes níveis de sofrimento relacionados à dependência em jogos.
Em agosto, o Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou a quantidade de teleatendimentos mensais destinados a pessoas com problemas relacionados às apostas online.
Após o anúncio da proibição das bets, o Ministério da Saúde também informou que pretende ampliar a busca ativa de apostadores considerados contumazes, com oferta de acompanhamento e tratamento quando necessário.
Por que as apostas online aumentaram o acesso ao jogo?
Diferentemente dos jogos presenciais, as plataformas online podem ser acessadas pelo celular a qualquer hora e de praticamente qualquer lugar.
Luiz Carlos*, de 71 anos, integrante dos Jogadores Anônimos, compara essa facilidade à existência de um cassino dentro do próprio bolso. Segundo ele, no passado era necessário sair de casa para jogar, enquanto atualmente o acesso está disponível diretamente pelo celular.
Para especialistas, essa disponibilidade constante pode dificultar a interrupção do comportamento de apostar, principalmente entre pessoas que já apresentam sinais de dependência.
*Nomes fictícios foram utilizados a pedido dos entrevistados.
Fonte: Agência Brasil







