
A uva Goethe, cultivada no Sul de Santa Catarina há quase 150 anos, se tornou um dos símbolos da vitivinicultura dos Vales do Sul catarinense. Introduzida na região durante o período de colonização italiana, a variedade se adaptou ao solo, ao clima e ao relevo locais e passou a ser cultivada e aperfeiçoada por diferentes gerações de famílias produtoras.
A relação entre a uva, o território e o conhecimento desenvolvido pelos produtores levou, em 2011, ao reconhecimento da primeira Indicação Geográfica de Santa Catarina, na modalidade Indicação de Procedência. Em 2025, a região conquistou também a Denominação de Origem, que reconhece a relação entre as características dos vinhos e as condições naturais e humanas do território.
A Goethe é resultado do cruzamento entre a Moscato de Hamburgo e a híbrida Carter. A variedade apresenta predominância genética de uvas viníferas e dá origem a vinhos leves, aromáticos e de identidade marcante. Os produtos podem apresentar coloração entre amarelo-claro e dourado, aromas frutados e florais e acidez marcante, além de serem utilizados na produção de vinhos leves, refrescantes, frisantes e espumantes.
Apesar da importância atual, a produção da Goethe passou por períodos de dificuldade. A partir das décadas de 1950 e 1960, a expansão da mineração de carvão alterou a dinâmica econômica do Sul catarinense e levou muitas famílias a abandonar os parreirais. A retomada ocorreu posteriormente com o trabalho de produtores e pesquisadores que identificaram a possibilidade de recuperar a vocação histórica da região.
Pesquisadores da Epagri voltaram a estudar o potencial da variedade, enquanto produtores passaram a investir novamente na cultura. Criada em 2005, a Associação dos Produtores da Uva e do Vinho Goethe, a ProGoethe, passou a reunir produtores, vinícolas familiares e artesanais e profissionais ligados à assistência técnica. Atualmente, oito vinícolas familiares integram a associação.
Segundo o enólogo e pesquisador da Epagri, Stevan Grützmann Arcari, a Goethe esteve próxima de desaparecer devido à concorrência e à perda de notoriedade do produto. Estudos sobre a região, a planta e as características do vinho contribuíram para comprovar a identidade da variedade e sua relação com o território.
Uma das características da Goethe é a sensibilidade durante a maturação. A uva precisa de atenção especial no cultivo e também apresenta rápida oxidação após a colheita. Por isso, entre os produtores, é conhecida como a “uva do quilômetro zero”, já que precisa ser colhida, processada e encaminhada à vinificação no mesmo dia.
A tradição também é mantida por famílias que permanecem ligadas à produção há várias gerações. Na Vinícola Trevisol, em Urussanga, as raízes remontam a 1881, quando os antepassados da família chegaram à comunidade de Rio Caeté trazendo o cultivo da videira e o hábito de produzir vinho.
Atualmente, a propriedade está sob responsabilidade da quarta geração e já conta com a participação da quinta. Além da produção de vinhos, a família investiu no enoturismo, com degustações harmonizadas, piqueniques, cafés da roça, almoços típicos e recepção de grupos.
O trabalho desenvolvido ao longo das décadas transformou a Goethe em um produto associado à identidade dos Vales do Sul catarinense. Para produtores e pesquisadores, os reconhecimentos obtidos por meio da Indicação de Procedência e da Denominação de Origem contribuíram para ampliar a visibilidade da região no cenário da vitivinicultura.
Com informações da Alesc.







