
Neste sábado (08), comemora-se o Dia Nacional da Pessoa com Atrofia Muscular Espinhal (AME), uma doença genética rara e degenerativa. A data foi oficializada no Brasil pela Lei n°14.062/2020 com o objetivo de conscientizar a população sobre a doença, incentivar o diagnóstico precoce e apoiar as famílias afetadas. A equipe do ClicRDC conversou com o Médico Geneticista Ali Hasan, para entender a doença.
Entrevistadora: O que é a AME?
Dr. Ali Hasan: É uma doença genética hereditária, ou seja, o paciente que tem essa doença herda mutações genéticas tanto do pai quanto da mãe para desenvolver a doença. Por isso, a gente chama ela de doença autossômica recessiva, porque o risco de um paciente ter a doença quando os pais são portadores é de aproximadamente 25%.
Então, temos várias formas de apresentação clínica e vários tipos. Temos AME tipo 0, tipo 1, tipo 2, tipo 3 e tipo 4, sendo que a AME tipo 1 é a mais comum.
A atrofia muscular espinhal é uma doença genética associada a mutações em um gene chamado SMN1, que é um gene que garante a sobrevida do neurônio motor. Então, consequentemente, os pacientes que têm atrofia muscular espinhal vão ter manifestações clínicas associadas à parte motora, principalmente.
Como a forma mais comum é a tipo 1, geralmente as crianças nascem saudáveis, sem nenhuma manifestação clínica. Ao nascimento, geralmente a criança nasce sem nenhuma manifestação clínica, tanto pré-natal quanto perinatal no tipo 1, e nos primeiros dois a três meses costuma ter um desenvolvimento relativamente adequado.
Agora, a partir desse tempo, as crianças começam a apresentar manifestações clínicas, principalmente motoras. Essas crianças começam a apresentar uma fraqueza muscular progressiva, geralmente associada a uma hipotonia, e essa fraqueza muscular vai levar a uma regressão motora.
Essas crianças, de forma geral, com tipo 1, costumam ter inicialmente um sustento cefálico, ter movimentos nos quatro membros, e aí começam a apresentar uma regressão motora. Então, começam a apresentar uma fraqueza muscular, uma regressão motora com regressão da força e dos movimentos dos quatro membros, e isso leva, depois, a uma perda de marcos do desenvolvimento já adquiridos.
Então, uma criança que já tinha sustento cefálico vai começar a perder esse sustento cefálico. Uma criança que tinha movimento nos membros vai perdendo de forma progressiva esses movimentos dos membros, e isso nos leva a uma apresentação clínica de uma hipotonia.
Essa criança vai ter uma hipotonia muscular e vai progredindo. Isso vai levando, depois, a uma redução dos movimentos dos quatro membros. Isso leva a uma fraqueza muscular bulbar, que leva a uma dificuldade na sucção, na deglutição dessa criança, ou seja, essa criança vai ter dificuldade para amamentação.
Isso leva a uma perda ponderoestatural associada, geralmente, à aspiração desses alimentos, levando a quadros respiratórios frequentes. Posteriormente, essas crianças começam a apresentar também uma fraqueza da musculatura respiratória, principalmente dos músculos intercostais, levando a quadros respiratórios de insuficiência respiratória progressiva.
Ou seja, uma criança que nasce bem, depois vai começar a apresentar uma fraqueza muscular progressiva. Se não for tratada de forma oportuna, essa criança vai perder de forma progressiva a força muscular e os movimentos de forma geral.
Isso nos leva à suspeita da atrofia muscular espinhal. Quando temos essa suspeita de uma criança que pode ter essa doença, geralmente é solicitado um exame chamado MLPA do gene SMN1. Aí, a gente vai, geralmente, identificar em 95% dos casos perda de pequenos segmentos dentro do DNA, dentro desse gene que é chamado SMN1, e vai confirmar o diagnóstico de atrofia muscular espinhal.
Entrevistadora: Tem alguma forma dos pais descobrirem a presença dessa alteração no gene antes de pensar em engravidar?
Dr. Ali Hasan: Existe, sim. Hoje, temos testes gerais, que a gente chama testes de portadores assintomáticos, que vão avaliar várias doenças hereditárias, incluindo a atrofia muscular espinhal, além de outras doenças genéticas que podem ser solicitados para os pais.
Mas também tem testes específicos para os pais, principalmente quando existe histórico familiar de atrofia muscular espinhal. Se tiver algum parente com esse diagnóstico, o casal pode realizar esse exame, que é chamado MLPA para o gene SMN1, e também, em alguns casos, a gente precisa solicitar o sequenciamento para saber se os pais são portadores dessa alteração genética, que pode levar um filho ou uma filha a ter o diagnóstico de atrofia muscular espinhal.
Ou seja, existe a possibilidade de saber, sim, se os pais são portadores. Consequentemente, os pais podem ser orientados através de técnicas de fertilização assistida para ter um filho que não tenha essa doença.
Entrevistadora: Qual a importância do diagnóstico precoce?
Dr. Ali Hasan: O mais importante nesse caso é realizar o diagnóstico precoce, porque o tratamento dessas crianças, quanto mais precoce é realizado, o prognóstico é bem melhor, porque hoje temos várias terapias que são indicadas para os pacientes que têm atrofia muscular espinhal.
Temos uma terapia via oral, que é um remédio chamado risdiplam, temos uma terapia de injeção intratecal, a gente chama de nusinersena, e temos também uma terapia gênica chamada Zolgensma, que é uma terapia de tratamento único.
Então, quanto mais precoce é realizado o tratamento, principalmente em crianças assintomáticas, ou seja, antes do início dos sintomas, a efetividade e eficácia desse tratamento é muito melhor.
Claro, muitas vezes é muito difícil realizar o diagnóstico em uma criança ainda na fase assintomática, porque a criança não tem sintomas. Isso acontece geralmente em dois cenários.
Primeiro, quando outro irmão, outra irmã, já tiveram o diagnóstico. Aí nasce a criança e é realizado o diagnóstico de forma muito precoce e, consequentemente, é realizado o tratamento de forma precoce, que a sua eficiência e efetividade vai ser muito melhor quando é na fase assintomática.
Ou quando, como a gente conversou agora, quando o casal realizou uma pesquisa de portador assintomático, foi confirmado que eles são portadores da doença e, aí, quando o filho nasceu, a gente realiza o diagnóstico pré-assintomático.
Porém, muitas vezes, o diagnóstico vai ser feito depois da criança nascer e apresentar sintomas. Aí vai com o pediatra, o pediatra vai começar a perceber uma regressão motora, vai encaminhar com o geneticista, com o neuropediatra, que vai ser feito o diagnóstico e vai começar o tratamento a partir do momento do diagnóstico.
Então, quanto mais precoce o diagnóstico, melhor seria o resultado do tratamento para essas crianças.
Entrevistadora: O tratamento tem um tempo determinado ou é para a vida toda?
Dr. Ali Hasan: Dependendo da terapia. Por exemplo, hoje, quando a gente fala sobre terapia gênica, seria o Zolgensma, que é a indicação principal para crianças antes dos 6 meses, mas pode ser feito antes dos 2 anos também.
A terapia, o tratamento é um tratamento único, ou seja, a gente realiza uma terapia única, uma única aplicação para essas crianças e, até o momento, não teria indicação de uma segunda terapia.
Quando a gente fala sobre outras terapias, como a nusinersena e o risdiplam, esse é um tratamento que vai ser realizado ao longo da vida.







