
Ao pensar em cirurgia plástica, é comum imaginar soluções rápidas para incômodos que nos acompanham há anos. Um nariz que sempre incomodou em fotos, um contorno corporal que não condiz com o que se gostaria. Em muitos casos, a cirurgia pode, de fato, ajudar a alinhar aparência e percepção de si. Mas há situações em que a melhor conduta é justamente não operar.
Isso acontece, por exemplo, quando a expectativa do paciente não é compatível com o que a medicina consegue oferecer. Às vezes, o desejo não é apenas mudar um traço, mas transformar a própria vida a partir dele. Quando a promessa de “corpo novo” vem acompanhada da ideia de “vida nova” – mais amor, mais sucesso, mais aceitação –, é preciso cuidado redobrado. Nenhum bisturi dá conta de reformar todas as dimensões da existência de alguém.
Também há momentos em que o quadro emocional está fragilizado. Lutos recentes, separações, mudanças bruscas de rotina ou crises de autoestima podem levar à busca por soluções imediatas. A cirurgia aparece, então, como um tampão para aliviar uma dor que é, na verdade, mais profunda. Nesses contextos, o risco é que o centro do sofrimento permaneça, mesmo depois da recuperação, e que o resultado, por melhor que seja tecnicamente, não traga o alívio esperado.
Outro ponto delicado é quando a motivação principal é a aprovação externa. Pacientes que chegam ao consultório dizendo que querem agradar o parceiro, seguir uma tendência nas redes sociais ou “ficar igual” a uma referência específica merecem uma escuta atenta. A cirurgia plástica é um campo em que o desejo pelo reconhecimento do outro, às vezes, fala mais alto do que o desejo próprio, e é função do cirurgião distinguir uma coisa da outra. Operar para atender apenas a uma expectativa alheia dificilmente é um bom caminho.
Nessas situações, o “não” torna-se parte da responsabilidade profissional. Dizer que não é o momento, que aquela indicação não é adequada ou que a cirurgia não resolverá o problema central não é negar cuidado; é justamente exercê-lo. Recusar um procedimento pode ser tão importante quanto realizá-lo, porque protege o paciente de frustrações, riscos desnecessários e de uma relação distorcida com o próprio corpo. Saber quando não operar é tão importante quanto dominar a técnica. A boa prática em cirurgia plástica passa por reconhecer os limites do procedimento e respeitar a história, o tempo e a subjetividade de cada paciente.
A cirurgia plástica pode ter um lugar importante na vida de muitas pessoas, ao aliviar incômodos antigos, ajustar proporções e atenuar sinais do tempo. Isso não a transforma, porém, em resposta para dores emocionais, conflitos afetivos ou histórias marcadas por violência e desvalorização. Quando a indicação é criteriosa e o cuidado é ético, ela deixa de ser promessa de transformação total e passa a ocupar o lugar que lhe cabe: um recurso entre outros, colocado a serviço de um olhar mais honesto e cuidadoso sobre o próprio corpo.
Dr. Bruno Blaya | Médico Cirurgião Plástico
Membro Especialista da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Médico pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul 2011
Segundo-Tenente Médico da Força Aérea Brasileira (R/2) – FAB 2012 Cirurgião Geral no Hospital de Clínicas de Porto Alegre 2014
Cirurgião Plástico na Irmandade Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre 2017 CRM/SC 29286 | RQE/SC 19338
CRM/RS 35691 | RQE/RS 31926
Chapecó-SC e Erechim-RS
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A beleza em realçar o que é seu.






